Em mais de 60 países, o dia 10 de setembro é dedicado à prevenção do suicídio. Um tema ainda cercado de estigmas, mitos e tabus, mas que anualmente ceifa mais de 700 mil vidas.

Prevenir o suicídio é, antes de tudo, cuidar da vida. É perceber o sofrimento, abrir espaços para a conversa, oferecer acolhimento e nos aproximar de quem precisa de ajuda.

No tempo em que vivemos, pessoas que estão lutando contra a dor muitas vezes carregam batalhas que ninguém consegue enxergar. Continuam trabalhando, sorrindo e convivendo, enquanto, por dentro, enfrentam uma luta silenciosa, na qual até mesmo existir pode parecer pesado. Outras vivem imersas em uma depressão profunda, sem ânimo para nada e sem conseguir encontrar motivos para continuar.

Essas pessoas nem sempre desejam deixar de existir. Muitas vezes, desejam apenas que a dor termine e, em meio a um sofrimento intenso, a morte pode parecer uma saída. 

Elas precisam encontrar alguém disposto a olhar, perguntar, escutar e permanecer. Nem sempre teremos as palavras certas ou saberemos como aliviar a dor de alguém. Mas podemos oferecer nossa presença e dizer: “Você não precisa passar por isso sozinho. Eu estou aqui.”

Há pessoas atravessando noites tão longas que já não conseguem enxergar o amanhecer. Como foi o caso da jovem Renata. Há quatro anos, ela chegou até nós no GASS – Grupo de Apoio a Sobreviventes de Suicídio, aqui no Uruguai, em um encontro virtual dos grupos de apoio em prevenção de suicídio. Ela veio ao grupo, a convite de um amigo, que percebeu que necessitava de ajuda. Chegou tímida, observando tudo, e à medida que foi se sentindo confortável, começou a compartilhar sua dor. Havia passado por situações muito difíceis que a levaram a não querer mais viver. Havia tido várias tentativas de autoeliminação, e quando escutou de outras pessoas, que também lutavam diariamente com ideias de suicídio, se sentiu entendida e aceita.  

Depois de participar de alguns encontros, Renata nos procurou de forma particular, buscando ajuda. Ela dizia que já não tinha mais esperanças, havia se cortado e, por alguns dias, esteve internada. Começamos a acompanhá-la e orientá-la. Uma noite, já de madrugada, em meio a uma crise de pânico, ela ligou pedindo ajuda – não queria ir ao hospital com medo de que fosse internada. 

Ela chorava e dizia que não podia respirar, que iria morrer. Um momento difícil, tenso, mas pela graça de Deus, pudemos apoiá-la, ajudá-la a sair daquela crise. Quando ela já estava estabilizada, tranquila e se sentia muito melhor, pudemos falar do amor de Deus e ela entregou seu coração a Jesus. Alguns dias depois, ela escreveu: “Voltei a viver, ressuscitou o encanto, tirei o pó das minhas asas e comecei uma nova viagem, com novos horizontes, novas metas. Me refugiei em mim, comecei a me amar e me respeitar. Me liberei, deixei atrás várias mochilas, e foi aí que percebi que o que me prendia era meu passado. É momento de voar. De criar, de novas histórias, de renascer. Liberto, confio, aceito e solto. Escrevo isso porque dei grandes passos para minha libertação, para minha cura, e quis compartilhar minha felicidade com vocês. Obrigada pelo apoio!”.  Desde então, começamos a orar juntas e ler a Bíblia. Hoje ela incentiva os outros do grupo a se manterem firmes e fala do seu testemunho. 

Assim como Renata, os que sofrem precisam de pessoas que sejam, por algum tempo, “memória da luz”, lembrando que um momento de dor não precisa definir toda a sua história.

Por isso, não podemos nos acostumar com a dor do outro, nem menosprezá-la. Precisamos aprender a perguntar, escutar e acompanhar, sem julgar.

Uma conversa pode abrir um espaço de esperança. Um abraço pode sustentar alguém que já não consegue se sustentar sozinho. Uma pergunta sincera pode abrir uma porta onde parecia não haver saída.

O Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, celebrado em 10 de setembro, é uma oportunidade para nos lembrarmos de que a prevenção também começa em nós: na mensagem que enviamos, na ligação que fazemos, na pergunta que temos coragem de fazer e na decisão de permanecer ao lado de quem atravessa uma dor que não podemos ver.

Como Jesus nos ensinou na Parábola do Samaritano, precisamos cuidar do próximo com o mesmo amor que o Pai tem para conosco.

“Então chegou perto dele, limpou os seus ferimentos com azeite e vinho e em seguida os enfaixou. Depois disso, o samaritano colocou-o no seu próprio animal e o levou para uma pensão, onde cuidou dele.

No dia seguinte, entregou duas moedas de prata ao dono da pensão, dizendo: — Tome conta dele. Quando eu passar por aqui na volta, pagarei o que você gastar a mais com ele.

Então Jesus perguntou ao mestre da Lei: — Na sua opinião, qual desses três foi o próximo do homem assaltado?

— Aquele que o socorreu! — respondeu o mestre da Lei. E Jesus disse: — Pois vá e faça a mesma coisa.” (Lucas 10:34-37 | NTLH)

Que possamos compartilhar o Evangelho entendendo que também faz parte da missão amparar o outro. 

Pois cuidar da vida também é estar presente. É escutar. É acolher. É permanecer. É refletir o amor de Deus. 

Clélia Kerne de Oliveira

Missionária no Uruguai